O dia em que o EBITDA mentiu

Ele apresentou os números da empresa na reunião de sócios. EBITDA em alta. Margem operacional crescendo. Gráficos bonitos. PowerPoint impecável. Todos sorriram. Um dos sócios até sugeriu: “vamos distribuir lucros este trimestre.”.

Mas naquela mesma semana, ele teve que ligar para o banco pedindo antecipação de recebíveis. Tinha folha de pagamento na sexta-feira e não tinha dinheiro. Literalmente. Conta zerada. Empresa lucrativa no papel, quebrada no caixa.

Como isso acontece? Ele não entendia. Vendia bem, margem era boa, despesas sob controle. Todos os indicadores apontavam sucesso. Mas na hora de pagar fornecedor, investir em estoque ou simplesmente honrar compromissos, o dinheiro não estava lá.

Foi em um almoço com um amigo que a ficha caiu. O cara era CFO de uma grande empresa e disse algo que mudou tudo: “EBITDA é bonito, mas não paga conta. Quem paga conta é fluxo de caixa.”.

Ele voltou para o escritório e pediu para o financeiro montar um relatório diferente. Não queria mais saber quanto lucrou no regime de competência. Queria saber quanto dinheiro de fato entrou e quanto saiu. A realidade nua e crua do negócio.

O que viu foi assustador. Ele vendia muito, mas recebia em 60 dias. Comprava com prazo menor. Tinha mercadoria parada no estoque por meses. Investiu em máquinas novas que não apareciam no EBITDA, mas drenaram o caixa. E os impostos? Ah, esses sempre chegavam na hora errada.

No papel, tudo lindo. Na prática, sufocado.

Ele começou a olhar a empresa de outro jeito. Não pelos números contábeis que impressionam investidor. Mas pelo dinheiro real que circulava. Ou não circulava.

Criou uma rotina nova. Toda segunda-feira, antes de qualquer agenda, abria o fluxo de caixa. Não o projetado, o realizado. Quanto entrou semana passada? Quanto saiu? Quanto tem disponível? Simples assim!

Começou a tomar decisões diferentes. Aquela expansão linda que planejava? Adiou. Porque o fluxo mostrava que, por mais que o EBITDA suportasse, o caixa não aguentaria os três primeiros meses de investimento. Aquele cliente grande que comprava muito, mas pagava em 90 dias? Renegociou prazo ou simplesmente recusou pedido. Preferiu vender menos e receber antes.

Mudou até a forma de conversar com o time. Parou de celebrar faturamento. Começou a celebrar recebimento. Porque venda sem recebimento é só promessa, não é dinheiro.

Sabe o que aconteceu? A empresa cresceu menos em faturamento. O EBITDA até caiu. Mas pela primeira vez, em anos, ele dormia tranquilo, pois sabia que tinha dinheiro para pagar as contas. Não dependia mais de banco, de antecipação, de malabarismo financeiro.

Aprendeu que no Brasil, com juros altos e crédito imprevisível, quem manda não é o lucro contábil. É o caixa. Sempre foi. Sempre será.

Empresa com EBITDA alto e caixa vazio não é empresa saudável. É paciente em UTI com maquiagem.

Quantas empresas você conhece que faliram lucrando?

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