Governança corporativa não existe para complicar a empresa. Existe para evitar que a família complique

Vejo isso toda semana. Empresa familiar que funciona bem, até o dia em que o cunhado do sócio quer entrar. Ou o filho do fundador achar que merece ser diretor aos 25 anos. Ou a esposa de um dos sócios começar a opinar sobre contratação sem nunca ter trabalhado na empresa.

Aí vira bagunça! Porque não existe regra clara sobre quem pode entrar, em que cargo, com qual salário, reportando para quem. Cada caso vira negociação emocional. E negociação emocional em empresa familiar sempre termina mal.

Governança corporativa não é burocracia. É proteção da empresa contra decisões baseadas em afeto, culpa ou pressão familiar. É ter escrito, antes do problema aparecer, como as coisas funcionam.

Quem pode trabalhar na empresa? Qualquer familiar ou só quem tiver qualificação mínima? Se for qualificação, qual é? Diploma? Experiência prévia fora? Quantos anos? Quem avalia se a pessoa está apta? Tem período de experiência? Reporta para quem? Ganha quanto? Segue tabela salarial ou “a gente vê depois”?

Parece exagero? Não é! Isso é o mínimo. Porque quando você não define essas questões antes, vai definir no meio da briga. O detalhe é que, nessa hora, não tem mais jeito.

Governança também protege a família da empresa. Define como funciona a sucessão caso o fundador morra ou fique incapacitado, quanto a empresa pode distribuir de lucro sem comprometer investimento, o que acontece se um sócio quiser sair ou se dois sócios quiserem coisas opostas, entre outros pontos igualmente importantes.

Sem governança, tudo vira “a gente resolve na hora”. No entanto, na hora, com emoção alta e dinheiro no meio, a família implode.

Já vi irmãos que não se falam há 10 anos, por causa de divergência que poderia ter sido resolvida com uma cláusula no acordo de sócios. Vi empresa lucrativa quebrar porque os herdeiros não sabiam quem tinha direito a decidir o quê. Vi fortuna de 40 anos de trabalho evaporar em anos de briga judicial.

Tudo isso se evita com papel assinado. Acordo de sócios. Regras de entrada e saída de familiares. Critérios de remuneração. Processo sucessório. Conselho de família. Não precisa ser sofisticado. Precisa existir.

A resistência é sempre a mesma: “mas a gente se dá bem, não precisa disso.”. Até precisar. E quando precisa, já é tarde. Porque governança se constrói em tempo de paz, não em tempo de guerra.

Empresa familiar sem governança é bomba-relógio com razão social.

Quantas empresas familiares você conhece que operam na base do “a gente resolve conversando”?

Até o dia em que não resolve mais.

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