O dia em que ele percebeu que estava construindo uma prisão

Acordava às 5h da manhã. Dormia depois da meia-noite. Finais de semana eram só uma extensão da semana, com o celular sempre à mão. Férias? No máximo dez dias, checando e-mail três vezes por dia. Ele dizia para si mesmo: “é só até a empresa se estabilizar.”.

Isso faz doze anos.

A empresa cresceu. Faturamento multiplicou por vinte. Abriu três filiais. Quadro de funcionários passou de 15 para 200 pessoas. Prêmios, reconhecimento, matérias em revista de negócios. Por fora, tudo brilhava.

Por dentro, ele estava exausto. Não aquele cansaço que um descanso resolve. Era algo mais profundo. Um vazio que crescia junto com o faturamento.

Ele olhava para os funcionários saindo às 18h e sentia inveja. Inveja de quem podia desligar, de quem não acordava às 3h da madrugada pensando em fluxo de caixa. Pensava: “construí essa empresa para ter liberdade. Por que me sinto mais preso do que quando era funcionário?”.

A ficha caiu numa quinta-feira comum. A filha dele tinha apresentação na escola. Ela pediu três vezes para ele ir. Ele prometeu três vezes. Faltou nas três. Na terceira vez, ela nem chorou. Só disse: “tudo bem, pai. Eu já sabia.”.

Aquilo doeu mais que qualquer bronca.

Foi aí que ele entendeu. O problema não era a empresa crescer. Era ele não ter crescido junto. Continuava fazendo tudo como quando a empresa era pequena. Aprovava compra de material de limpeza, checava planilha de ponto, validava orçamento de R$ 300.

Tinha 200 funcionários, mas continuava trabalhando como se estivesse sozinho.

Começou diferente na segunda-feira seguinte. Delegou a primeira decisão que sempre foi dele: aprovar férias da equipe. Depois, passou para o gerente financeiro a decisão de compras até R$ 5 mil.

No começo, foi angustiante. Checava tudo por trás, refazia, corrigia. Até que percebeu: as pessoas erravam diferente dele, mas não erravam mais. Algumas até acertavam melhor.

Criou rituais. Reunião semanal de 30 minutos com cada gerente. Nada de WhatsApp fora do horário comercial, salvo emergência real. Estabeleceu alçadas: quem decide o quê, até qual valor, em que situação.

Pela primeira vez, em doze anos, tirou férias de verdade. Vinte dias. Celular no modo avião. A empresa não quebrou. Quando voltou, estava tudo funcionando. Alguns processos até melhoraram.

E sabe o que mais mudou? A empresa cresceu de novo. Mas dessa vez, ele não cresceu junto em horas trabalhadas. Cresceu em clareza, em estratégia, em visão de futuro. Porque, finalmente, tinha tempo para pensar, não só para resolver problemas.

Entendeu algo crucial: empresário(a) que trabalha mais que todos os funcionários juntos não está construindo uma empresa. Está construindo uma prisão para si mesmo.

Hoje, ele sai às 18h, vai na apresentação da filha, desliga o celular no fim de semana e a empresa continua crescendo. Não apesar disso. Por causa disso.

Enfim, descobriu que liderar não é fazer tudo. É fazer com que tudo seja feito.

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