Sucessão: o dia em que ele percebeu que não tinha preparado ninguém para assumir o seu lugar

Estava no escritório, olhando o balanço do terceiro trimestre.

Números bons. Empresa saudável. Tudo funcionando.

De repente, o seu filho entrou na sala e perguntou: “pai, posso sair mais cedo, hoje?”.

Era quinta-feira, 15h.

Ele não julgou. Só pensou: “e se eu precisar sair da empresa, amanhã?”.

Não por escolha. Por acidente, doença ou cansaço.

Quem assume?

O filho tem 27 anos, excelente formação, MBA em Boston, inglês fluente.

Mas não sabe como o pai negocia com o Seu Ari, fornecedor de 15 anos que nunca assinou um contrato formal.

Não conhece o código que ele usa com o gerente da fábrica quando um problema está prestes a sair do controle.

Nem viveu a crise de 2015, quando segurou salários para não demitir ninguém.

O problema não é competência.

É que ele passou 25 anos construindo uma empresa que funciona dentro da própria cabeça.

E, agora, percebe: seu maior ativo não está no balanço.

Está em conversas de corredor, acordos de palavra, leituras de silêncio.

A empresa não é propriedade dele.

Ele é que é propriedade dela.

E se amanhã ele faltar, não sabe se ela continua sem ele.

Foi, assim, que ele entendeu algo. Não é sobre construir impérios. É sobre estruturar a governança e formar sucessores.

Sucessão não acontece na hora da saída.

Acontece anos antes, no dia a dia.

Começou diferente na segunda-feira seguinte.

Levou o filho para a reunião com o Seu Ari.

Deixou-o observar. Só observar.

Depois, no carro, perguntou: “o que você viu?”.

O filho falou de preço, prazo, condições.

Ele falou da esposa de Seu Ari que está doente, do filho que começou faculdade.

Negócio não é sobre contrato. É sobre gente!

Semana seguinte, passou a gravar áudios explicando as suas decisões.

O motivo pelo qual escolheu tal fornecedor.

O porquê promoveu fulana mesmo sem ser formada.

O que o levou a não demitir sicrano, após um erro cometido.

Não eram regras. Era contexto.

O conhecimento que estava na cabeça dele começou a sair.

Aos poucos, parou de ser insubstituível.

E percebeu: quanto mais ensinava, mais livre ficava.

A empresa familiar brasileira sofre quando o fundador guarda tudo consigo e, quando deixa a operação, leva também a memória viva do negócio.

Os critérios de decisão, os relacionamentos construídos, o timing das negociações. Tudo isso morre junto com a sua saída.

Hoje, nas quintas, o filho ainda sai às 15h.

Mas quando sai, sabe o que precisa ser feito.

Além dos ensinamentos do pai, recebe mentoria profissional, como parte da sua formação como sucessor.

E o pai dorme tranquilo.

Porque, finalmente, entendeu: sucessão não é preparar alguém para te substituir.

É estruturar a governança e preparar alguém para continuar a empresa sem você precisar estar lá.

Pense nisso!

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