
Vejo um padrão destrutivo que é o maior inimigo da longevidade da empresa familiar: a confusão entre o CNPJ e o CPF. A empresa familiar brasileira, pilar da nossa economia, frequentemente tropeça na falta de governança corporativa robusta, transformando, muitas vezes, o palco de decisões estratégicas em um ringue de disputas pessoais.
A realidade é dura e os números não mentem: menos de 30% das nossas empresas familiares com faturamento superior a R$ 30 milhões/ano possuem conselhos independentes ativos, um abismo em comparação com a média global. Isso não é apenas uma estatística; é um sintoma de que decisões críticas, como grandes investimentos ou a escolha de um novo CEO, ainda estão sendo tomadas no calor da emoção familiar, e não na frieza da estratégia de mercado. A ausência de um olhar externo e isento perpetua vícios de gestão e impede a oxigenação necessária para a inovação.
O custo desse mito é altíssimo. Ele se manifesta na contratação de parentes sem qualificação técnica, no uso de recursos da empresa para cobrir despesas pessoais da família e, principalmente, na paralisação estratégica causada por brigas de herdeiros. O conflito não resolvido é o maior dreno de capital e energia. Pense nos cenários mais comuns: o “filho pródigo” que exige um cargo de diretoria sem ter as competências necessárias; o “dilema da viúva” que, como acionista, interfere nas decisões operacionais por questões emocionais; ou a “guerra de irmãos” que paralisa a aprovação do orçamento anual porque um se sente preterido pelo outro. Estes não são apenas dramas familiares; são falhas de governança que se traduzem em perda de market share, demissões de talentos-chave e oportunidades de negócio desperdiçadas.
A profissionalização não é um luxo, é uma vacina contra a mortalidade empresarial. Ela começa com a separação clara de papéis e a implementação de ferramentas de gestão de conflitos. O Acordo de Acionistas e o Conselho de Família são instrumentos jurídicos e sociais que estabelecem as regras do jogo, definindo quem pode trabalhar, como será remunerado e, crucialmente, como o poder será transferido.
Além disso, a falta de profissionalização afasta o talento. Se você não consegue atrair e reter profissionais de alto nível (e apenas 3% a 5% das empresas familiares brasileiras se consideram eficazes nisso), o problema não é o mercado, é a sua estrutura. O talento não-familiar não aceita a falta de meritocracia ou a ausência de um plano de carreira claro, e é esse talento que a sua empresa precisa para crescer e se modernizar.
Pergunto a você, empresário(a): sua empresa está preparada para sobreviver à próxima geração, superando a barreira dos 70% de falha na transição, ou ela é refém do próximo conflito familiar? A longevidade do seu legado depende da sua coragem em profissionalizar a gestão, transformando a emoção em estratégia.
Pense nisso!




