
Planejar para quê, se o mercado muda a cada seis meses? Porque planejamento estratégico segue valendo em um mundo em transformação.
“Planejar cinco anos para quê, se o mercado muda a cada seis meses?”
Ouvi essa pergunta de um empresário, numa sala de reunião, com um tom de quem acreditava ter encerrado o assunto. Parecia lógico. Num mundo que muda rápido, planejar parece perda de tempo.
Só que o mercado de 2026 tem respondido a essa pergunta com números.
O Brasil fechou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior volume da história. Juros altos, crédito restrito e consumo em queda atingiram todo mundo. Mas nem todo mundo reagiu da mesma forma. O que separa quem atravessa o cenário de quem sucumbe a ele não é sorte, nem tamanho. É direção.
O Grupo Casas Bahia mostra o custo de não tê-la com clareza. Em agosto, a rede pediu recuperação judicial, depois de um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no trimestre e com dívidas na casa dos R$ 17,3 bilhões. O alerta do mercado vinha de anos, sem que a resposta estrutural fosse suficiente para a nova realidade do varejo.
O Magalu no mesmo setor e sob o mesmo cenário, fez outra escolha. Recusou a guerra de preço com os gigantes do comércio eletrônico e optou por somar audiência por parcerias. O acordo com o Mercado Livre, anunciado em setembro, colocou cerca de 27 mil produtos do estoque próprio na plataforma, e as ações subiram mais de 16% no dia. As da Casas Bahia caíram mais de 21%.
Nenhuma das duas adivinhou o futuro, tampouco controlava o cenário. A diferença esteve no que cada uma decidiu fazer diante dele. Quem sabe onde quer chegar consegue dizer não ao que o afasta do caminho.
É esse o papel do longo prazo. Ele não elimina a incerteza, apenas impede que cada mudança de mercado vire pânico. A tática se ajusta, as premissas são revisadas, os ciclos de planejamento ficam mais curtos. A direção permanece.
Claro que o horizonte encurtou. Hoje, o longo prazo cabe em menos anos do que cabia há uma década. Mas encurtar o horizonte não é o mesmo que abolir o planejamento. Quem trabalha só com o urgente passa os dias apagando incêndio e, no fim do ano, não sabe explicar por que continua no mesmo lugar.
O empresário daquela sala tinha razão em um ponto: o mercado muda mesmo. O erro foi concluir que, por isso, não vale a pena saber para onde ir.
Sem direção definida, toda mudança de mercado parece ameaça. Com ela, vira informação.




