Tentar estruturar a sucessão sem um alicerce de governança é como erguer um arranha-céu sobre uma fundação de base residencial

Tentar estruturar a sucessão sem um alicerce de governança é como erguer um arranha-céu sobre uma fundação de base residencial. A estrutura até sobe, mas desaba com o próprio peso quando a carga fica pesada demais para suportar.

Muitas famílias confundem as coisas. Acha que sucessão é decidir quem vai assumir o comando, e resolve tudo numa conversa de fim de ano, no clima morno do jantar em família. Governança é o que vem antes disso, não depois.

Regras claras sobre quem decide o quê, fóruns definidos para discutir divergências, critério objetivo para avaliar desempenho: isso é fundação. Sem ela, qualquer sucessor entra numa casa sem estrutura, ainda que o prédio pareça impecável de fora.

O curioso é que, quando a estrutura falta, todo mundo assume o papel de arquiteto improvisado. O pai decide na emoção, o filho interpreta a emoção do pai como plano de carreira, e o genro descobre, no meio da negociação, que também tinha opinião sobre isso. Ninguém foi convidado formalmente para a obra, mas todos aparecem de capacete na cerimônia de inauguração.

Governança bem estruturada reduz esse tipo de improviso. Define quem senta no conselho, quem participa da diretoria, e como uma discordância vira decisão, em vez de virar mágoa arrastada por anos.

Também evita outro clássico da sucessão informal: o sucessor que descobre, só depois de assumir, que “liderar a empresa”, na prática, significava apagar incêndio que ninguém documentou, resolver dívida que ninguém contou e adivinhar critério que só existia na cabeça do fundador.

Empresas que investem nessa estrutura antes da sucessão chegam à transição com menos ruído e mais previsibilidade. Não porque a família parou de discordar, discordância é normal e até salutar, mas porque existe fórum certo para isso, com regra e prazo, em vez de bate-boca de improviso na sala de reunião.

Sucessão sem governança não é ousadia empresarial. É apostar a continuidade do negócio na sorte de todo mundo concordar sem regra nenhuma, o que, convenhamos, nunca funcionou, nem em jogo de tabuleiro entre irmãos.

Quem constrói fundação forte antes de subir o edifício não evita todas as tempestades, mas entra nela com estrutura para não desabar com a primeira chuva.

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