
Agosto de 2021. A Raízen fazia o segundo maior IPO da história da bolsa brasileira. R$ 6,9 bilhões captados. Valor de mercado: R$ 74 bilhões. Joint venture entre Shell e Cosan, quarta maior empresa do país em faturamento. Todos queriam comprar.
Março de 2026. A mesma Raízen protocola pedido de recuperação extrajudicial. R$ 65 bilhões em dívidas a renegociar. Prejuízo de R$ 19,8 bilhões em nove meses. A maior recuperação extrajudicial da história do Brasil.
O que aconteceu em menos de cinco anos?
Não foi acidente. Não foi azar. Foi uma sequência de decisões que muitos empresários reconheceriam nas próprias empresas. Cresceram rápido. Investiram pesado em expansão. Apostaram em projeções otimistas de preço de commodities. Alavancaram o balanço além do prudente. E quando o cenário mudou, a estrutura não aguentou.
A dívida bruta ultrapassou R$ 70 bilhões. O caixa, R$ 17 bilhões. Insuficiente.
A Raízen não quebrou por incompetência. Quebrou por ambição mal calibrada.
Porque crescimento sem margem de segurança é aposta, não é estratégia. Porque dívida barata em cenário favorável vira armadilha quando o cenário muda. Porque empresa grande demais para cair pode cair do mesmo jeito.
Hoje, com apoio de 47% dos credores, a empresa negocia. Suspendeu pagamento de dívidas financeiras por 90 dias. Tenta converter parte da dívida em ações. Vende ativos na Argentina por US$ 1 bilhão. Recebe aporte de R$ 4 bilhões de Shell e Cosan e torce para estrutura aguentar até a próxima safra.
Fornecedores continuam sendo pagos. Mas o futuro depende de credores aceitarem perder parte do que emprestaram.
A lição não é nova. Mas continua sendo ignorada. Crescimento sem caixa robusto é ilusão. Alavancagem sem margem de erro é roleta-russa. E quando a música para, quem está sem cadeira dança.
A Raízen era gigante. Tinha Shell e Cosan como sócios. Faturava mais de R$ 100 bilhões por ano. Mesmo assim, precisou pedir ajuda.
E o conselho de administração? Onde estavam os conselheiros quando a dívida ultrapassou qualquer limite prudente? Governança corporativa só funciona quando quem governa tem coragem de frear a expansão antes que vire precipício.
Agora, pense: se uma empresa desse porte, com governança corporativa, auditoria internacional e estrutura de multinacional tropeça ao crescer rápido demais, imagine a empresa familiar que expande sem planejamento, que aposta tudo numa “safra boa”, que alavanca o patrimônio da família na próxima oportunidade.
A diferença é que a Raízen tem Shell e Cosan para aportar bilhões. A empresa familiar tem o patrimônio de uma vida inteira em jogo. E quando quebra, quebra sozinha.
Quantas empresas familiares você conhece que estão crescendo sem se perguntar: “e se o cenário mudar?”?




