O sócio que nunca deveria ter entrado

Eram dois amigos de infância. Jogavam bola juntos, churrascos com as famílias, uma amizade de décadas. Quando a empresa começou a crescer, parecia natural: “vamos tocar isso juntos.”.

Nos primeiros anos, funcionou. Um cuidava das vendas, o outro da operação. Dividiam tudo meio a meio, sem contrato, só na confiança. Afinal, amigos não precisam de papel assinado, certo?

Até que a empresa dobrou de tamanho. E com ela, dobraram as divergências. Um queria investir em tecnologia, o outro preferia distribuir lucros. Um trabalhava 12 horas por dia, o outro delegava tudo e aparecia duas vezes por semana. Um colocou a casa como garantia num empréstimo, o outro disse que não podia arriscar o patrimônio familiar.

Numa terça-feira qualquer, a primeira grande discussão. Gritaram um com o outro pela primeira vez, em 35 anos de amizade. No dia seguinte, não se falaram. Na semana seguinte, só por mensagem. No mês seguinte, chegavam em horários diferentes para não se encontrar.

A empresa crescia. Mas por dentro, morria.

Pior do que as brigas era o silêncio entre elas. O clima pesado de quem divide a mesa, mas não se olha nos olhos. Decisões travadas, oportunidades perdidas, funcionários sem saber a quem responder.

Até que num sábado de manhã, ele acordou com uma pergunta na cabeça: “quanto vale minha amizade?”. Porque naquele ritmo, perderia os dois. O amigo e a empresa.

Buscou ajuda. Não de um advogado. De alguém que entendia de gente.

A primeira coisa que ouviram foi incômoda: “vocês nunca foram sócios, mas amigos que viraram reféns um do outro.”.

Doeu. Mas era verdade.

Começaram um processo difícil de fazer quando se está no meio do caos. Sentaram-se para definir o que cada um queria. Não da empresa. Da vida!

Um queria construir um legado para os filhos, estava disposto a abrir mão de lucro, hoje, para ter patrimônio, amanhã. O outro queria viver bem já, aproveitar o dinheiro que ganhou. Nenhum dos dois estava errado. Eram apenas caminhos diferentes.

A solução não veio rápido. Levou meses. Acordos, planilhas, conversas difíceis. Um deles saiu da sociedade. O outro assumiu o controle total. Fizeram tudo documentado, com prazos, com valores justos, com respeito.

E sabe o que aconteceu? Voltaram a se falar. Não como sócios. Como amigos!

Porque entenderam algo que a maioria descobre tarde demais: sociedade não é sobre confiança. É sobre clareza. Você pode confiar cegamente em alguém, mas precisa de um acordo por escrito. Não porque duvida da pessoa. Mas porque a vida muda, prioridades mudam, circunstâncias mudam.

A maior causa de morte de empresas familiares brasileiras não é gestão ruim, nem falta de dinheiro. É conflito entre pessoas que se amam, porque misturaram vínculo afetivo com vínculo societário. E quando um dos dois quebra, os dois quebram juntos.

Conheço algumas sociedades que começaram com um abraço e terminaram com um processo. E você?

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