
O universo das pequenas e médias redes de supermercados brasileiras é um ecossistema de paixão, resiliência e, acima de tudo, família. Além disso, esses empreendimentos, muitas vezes, nascidos do esforço hercúleo de um fundador com a ‘barriga no balcão’, formam a espinha dorsal do abastecimento local e da economia nacional. Também carregam em seu DNA a força do empreendedorismo e a promessa de um legado que, idealmente, deveria transcender gerações.
Contudo, a realidade é implacável e, por vezes, cruel, pois dados estatísticos, que insistem em nos confrontar, revelam que a maioria esmagadora das empresas familiares não sobrevive à turbulência da transição: apenas 30% conseguem ultrapassar a primeira sucessão. Menos de 10% chegam à terceira geração. Para os fundadores e herdeiros que dedicam a vida a este setor de margens apertadas e operação 24/7, a reflexão é urgente: a paixão inicial é suficiente para garantir a perenidade do negócio? Estão construindo um legado sólido ou, sem perceber, preparando uma armadilha para as próximas gerações?
A sombra do fundador e o mito do “sempre foi assim”
O primeiro e talvez mais complexo desafio reside na figura do fundador. Aquele que criou o negócio, que conhece cada prateleira, cada fornecedor e cada cliente pelo nome, tem no supermercado não apenas uma empresa, mas a extensão de sua própria identidade. Abrir mão do comando não é, apenas, uma decisão de gestão, mas um desafio emocional profundo.
O modelo de gestão baseado na centralização do poder e na informalidade, que funcionou brilhantemente na fase inicial, torna-se um passivo perigoso à medida que a rede cresce. A resistência em delegar e a dificuldade em aceitar que o mundo mudou, que o sucesso de amanhã exige mais do que a intuição de ontem, são fatores que engessam a inovação e sufocam o potencial do(a) sucessor(a).
É preciso que o fundador compreenda que o maior ato de amor e de liderança com seu negócio e sua família não é permanecer no comando até o último dia, mas, sim, preparar a empresa para sobreviver sem ele. A sucessão, portanto, não é um evento de aposentadoria, mas um processo estruturado de transição de poder e de conhecimento, onde o foco deve migrar do operacional para o estratégico.
O varejo supermercadista: o imperativo da competência técnica
O setor supermercadista, em particular, impõe uma camada adicional de complexidade. Não estamos falando de um negócio com margens confortáveis que permite erros. Estamos em um ambiente de margens estreitas, alta competitividade e uma complexidade operacional crescente que exige excelência em áreas como:
- Logística e Cadeia de Suprimentos: a gestão de perecíveis e o controle de estoque são vitais.
- Tecnologia e Dados: a digitalização, o e-commerce e a análise de dados para precificação e fidelização de clientes são mandatórios.
- Gestão de Pessoas: o alto volume de colaboradores e a necessidade de treinamento contínuo em atendimento.
Neste cenário, o sobrenome não garante liderança. O(a) sucessor(a) precisa herdar competência comprovada, e não, unicamente, o patrimônio. É crucial não confundir herdeiro(a) com sucessor(a) . O(a) herdeiro(a) recebe o quinhão; o(a) sucessor(a) precisa estar pronto(a) para liderar, e isso exige preparo técnico, experiência prática e, fundamentalmente, meritocracia.
A falta de um plano claro de desenvolvimento, que exponha o(a) sucessor(a) a todas as áreas críticas do negócio (do açougue ao financeiro, da logística ao marketing, da gestão à estratégia), é um convite ao fracasso. A sucessão deve ser baseada em critérios objetivos de desempenho, e não em laços afetivos.
Governança: a arquitetura que sustenta a longevidade
A informalidade, que é a marca registrada de muitas empresas familiares, torna-se o principal passivo na fase de sucessão. Decisões tomadas em jantares de família, a confusão de papéis (proprietário, gestor e membro da família) e a ausência de um fórum seguro para gerenciar conflitos criam um terreno fértil para disputas que, muitas vezes, levam a rede à paralisação ou à venda ou à falência.
A Governança Corporativa não é burocracia. Ela é a arquitetura que sustenta a longevidade. É o divisor de águas que transforma o costume familiar em estratégia empresarial. Para as pequenas e médias redes de supermercados, a implementação de estruturas de governança é vital.
Ao estabelecer regras claras, a governança garante que as decisões sejam tomadas com base no mérito e na estratégia, e não no favoritismo ou no ressentimento. Ela protege o patrimônio e, mais importante, a harmonia familiar, ao separar o afeto das decisões empresariais.
O caminho encorajador: tomando as rédeas do legado
O cenário não é de pessimismo, mas de urgência e oportunidade. As pequenas e médias redes de supermercados que prosperarão são aquelas que encaram a sucessão não como um fardo, mas como a maior alavanca estratégica para a próxima fase de crescimento.
O caminho para a perenidade exige coragem para enfrentar o tabu da sucessão e humildade para buscar o apoio externo. É preciso investir na preparação técnica e emocional dos sucessores, garantindo que estejam aptos a lidar com a complexidade do varejo moderno. É fundamental que o fundador, com a sabedoria de quem construiu o império, aceite a necessidade de um modelo de gestão mais profissional e menos centralizado.
A escolha é de cada família empresária: deixar o futuro ao sabor do acaso e das disputas emocionais, transformando o legado em uma armadilha, ou tomar as rédeas, estruturar a governança e garantir que a próxima geração herde não apenas um balcão, mas uma empresa preparada para o futuro.
Se a sua rede de supermercados está navegando por essas águas complexas, saiba que a jornada de profissionalização e o planejamento sucessório são processos delicados que se beneficiam enormemente de um olhar externo e especializado. Inteligência estratégica, governança e processo sucessório estruturado são diferenciais cruciais para transformar desafios em oportunidades e garantir que o seu legado familiar e empresarial seja sólido e perene.
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